AVISO AOS NAVEGANTES.

25/05/09 às 14:24
O TEXTO PRINCIPAL FICARÁ CONCENTRADO NO LIVRO, SE ALUGÉM QUISER, MANDO UM PEDAÇO EM PDF. ESPERO MANTER AQUI APENAS ALGUNS ESCRITOS PARALELOS, DIARIAMENTE (OU QUANDO EU CONSEGUI TERMINAR CADA UM)

OBRIGADO.

O BAILE DE FORMATURA

às 14:10
Era como qualquer baile de formatura de ensino médio. Todo mundo bem vestido, ternos alugados e gravatinhas coloridas. Vestidos pomposos e dias no salão, pais sorridentes por todos os cantos, filmadoras, máquinas fotográficas, e uma mesa de frios quilométrica. Todo mundo festejando o fato de que nunca mais verá uma enorme parcela daquelas pessoas com quem dividiram as salas de aula as vezes desde o primário. O festival da hipocrisia, de terno, salto alto e uma valsa antiquada como trilha sonora.

Ali estava eu, vestido feito um pingüim de geladeira, esperando a vez de receber o canudo, tirar uma foto com os professores, jantar e ir embora. Nunca fui fã desses eventos sociais, onde a gente se disfarça de feliz, e sorri para um bando de outros disfarçados, fingindo que a nossa classe média é feliz, unida e está em dia com as prestações do country clube. Eu sempre odiei o country clube.

Finalmente, meu nome. Preferi não fazer minha mãe chorar, e segui o protocolo. Sorrisos amarelos para as fotos e filmagens. Não via a hora do jantar ser servido.

Foi nesse clima de pseudo-alegria e paletós baratos que eu a conheci. Um ano mais nova que eu, irmã de um “amigo” que estudara comigo desde o primário. Confesso que ela não era a estrela mais bonita da noite, mas chamava a atenção pelo porte, pelo sorriso. O jeito de falar. Não consigo até hoje definir o que nela me despertou tanto interesse. Prefiro acreditar que foi o vestido de quatrocentos dólares. De qualquer forma, não consegui tirar os olhos dela a noite toda.

Sequer me aproximei de sua mesa.

CENA UM

21/05/09 às 14:32
Acordei no meu sofá. O sol do meio-dia que entrava por entre as cortinas, sapecava minhas pernas. Levantei lentamente. Estava ainda com a roupa amarrotada da noite anterior. Mas não fazia idéia de como havia ido parar ali. O velho de chapéu também não estava.

Tomei um banho, me vesti e fui até a padaria buscar algo para comer. Tinha plena certeza que tudo aquilo não passava de uma alucinação, uma viagem da minha cabeça, levada pela quantidade incalculável de álcool que andei ingerindo nesses últimos dias. Dias difíceis.

Nada era como antes. Eu não era como antes. Na verdade,. Tudo era bem diferente.

Qual foi a minha surpresa ao entrar em casa e dar de cara com o velho novamente, sentado, a beira da janela, bebendo uma dose de whisky. Ao me ver, sequer virou-se, apenas disse:

- Dias difíceis. Quer desabafar?

Eu já não sabia mais no que pensar, no que acreditar. Peguei um cigarro na mesa, acendi e sentei-me ao lado dele. Ele se mantinha olhando o nada através do vidro:

- Olhe só para você. Está um trapo humano. Sujo, desleixado. Imagina o que sua mãe diria se o visse assim.
- Melhor nem pensar. Ultima vez que vi minha mãe, foi no meu jantar de noivado.
- E depois disso, tem falado com ela?
- Só a contei que havíamos terminado. Depois não mais liguei.
- Há 6 meses não liga pra tua mãe?
- Sim, é uma vergonha, mas é verdade.
- Você deveria ligar agora. Já!
- Não. Pra ela ouvir a voz rouca e embriagada do seu filho? O que eu ia dizer? Que desde que ela me largou, perdi meu carro, meus amigos? Porque eu diria a ela que estou prestes a ser despejado, que não tenho mais todas aquelas aspirações que tanto disse ter? Pra que preocupar a coitada da minha mãe com meus problemas?
- Verdade. Ela só iria se preocupar e ficar lembrando como era linda a sua vida antes.
- Melhor não ligar.
- Tudo bem. Não ligue. Mas vai ficar aí se corroendo, feito pau de cupim até quando?
- É verdade. Não posso. Preciso mudar.
- E como pretende fazer isso?

Não fazia idéia do que responder. A sequência de acontecimentos que vinham a minha mente naquele momento era enlouquecedora. Não conseguia compreender porque estava tendo aquela conversa, na janela. Eu sabia que aquela situação não me era confortável:

- Não pretendo. Estou muito bem assim, obrigado.

- Você não está bem porra nenhuma. Você finge ser feliz e auto-suficiente. Acredita que a humanidade não presta, que toda e qualquer tentativa de relacionamento entre duas pessoas tende invariavelmente a miserabilidade. Você se esconde por trás desse casulo de drogas, álcool e solidão. Já cansou de contar quantas vezes ouviu aquele vinil sentado nesta poltrona, olhando por esta janela. Você não dorme direito. Você não come direito, não pensa, não vive direito. Tornou-se um misógino desde que sua namorada te largou. Perdeu a confiança que tinha na humanidade por causa de alguém que não valia todo o sentimento que você tinha a dar, e desde então, decidiu não dá-lo a mais ninguém. Mas você sofre por isso. Você quer voltar a confiar em alguém, mas tem medo de se machucar de novo. E se esconde. É ou não é?

-...
- Responda! – disse o homem, com olhar enfurecido e tom imperativo.
- Sim.
- Não ouvi.
- Sim. É verdade.
- E o que vai fazer a respeito? Nada? Vai deixar sua vida afundar feito um navio enquanto ela segue a dela feliz? Vai continuar aqui fumando e bebendo whisky vagabundo, enquanto ela nem se lembra mais de quem você é?
- MAS É CLARO QUE NÃO.
- Ótimo, é o que eu queria ouvir. Vista-se. Precisamos correr.
- Mas pra onde? Eu nem comi?
- A gente come um cachorro-quente. Anda.

Voltamos pra rua. Agora uma larga avenida na zona leste. Em meio a vários restaurantes, uma pequena porta. Atravessamos por entre as mesas até a porta dos fundos, que automaticamente se abriu, e só pude ouvir uma voz grave dizendo:

- Você está atrasado. Entre logo.

O VELHO

20/05/09 às 16:56
E ali estava eu. Com a mesma aparência de alguém que acabara de tomar uma surra de um pugilista peso-pesado. Debruçado sobre o balcão de madeira, de um bar escuro qualquer. A barba por fazer e a roupa amassada denunciavam que eu já estava há dias longe de casa. Na verdade, estive em meu apartamento pela manhã, somente pra ter certeza de que eu ainda morava lá.

E ali, naquele balcão, como todo derrotado que procura um refúgio para as magoas, eu estava. Os pensamentos curtos e sem sentido, povoavam minha mente entre um gole e um trago. Nada específico, até mesmo as baratas que passeavam pelo chão atraiam a minha atenção por alguns segundos. “Como é fútil e sem sentido a nossa existência”, pensava eu.

Num movimento inconsciente, peguei o celular no bolso da calça. A tecnologia e modernidade daquele pequeno aparelho contrastava com todo o resto do ambiente. Procurava no álbum de fotos alguma coisa, mas não sabia o que. Até que encontrei a foto dela. Olhei-a fixamente por alguns segundos. Murmurei meia dúzia de palavrões e atirei o aparelho no chão. Voltei a minha atenção para o cigarro que me queimava os dedos. Estava queimando o filtro amarelo.

Um senhor que passava pelo corredor, se prontificou a pegar o aparelho do chão e colocá-lo sobre o balcão novamente. De relance, tive a impressão de conhecê-lo. Usava um chapéu, camisa azul e um paletó visivelmente velho e batido. Agradeci o gesto de bondade com um balançar de cabeça e voltei a olhar o copo vazio. Gritei outra dose ao garçom.

O velho sentou-se ao meu lado, pegou do meu cigarro, acendeu, olhou-me nos olhos e disse:

- Você não quer estar aqui. E não precisa.
- Vovô. Obrigado pelo celular, e pode fumar a vontade. Mas se não percebeu, pretendo ficar sozinho. – respondi antes mesmo dele pensar em falar mais alguma coisa.
- Você nunca está sozinho.

A minha dose chegou. Dei uma mexida no copo, olhei de novo para aquele homem. A minha condição não permitia raciocinar muito:

- Quem diabos é você?
- Você me conhece. – disse ele, enquanto tragava calmamente e fitava um ponto qualquer da parede.
- Sim, eu já alucinei com a sua pessoa antes, e não foi nada legal. Eu perdi um avião por tua culpa, maldito.
- A culpa foi unicamente sua.
- Não interessa. Se você não sair, saio eu.
- A vontade.

Aquilo era tudo muito surreal. Aquele mesmo homem da outra vez, falando com tanta propriedade sobre mim. Eu estava ficando louco.

Pensei imediatamente em para de beber, de fumar. Peguei o celular, guardei-o no bolso de calça e fui me levantando. Sem qualquer movimento, o velho apenas disse:

- Não é o cigarro ou a bebida que te atormentam. Todos sabem, eu sei, ela sabe, você sabe. Mas todos com exceção de VOCÊ, conseguem enxergar.
- Agora é sério. Quem é você e o que diabos quer de mim? – perguntei enfurecido.
- Você me notou. Isso é um bom começo. Quer mesmo saber?
- Obviamente.
- Então vamos. Temos que correr. – e foi me puxando para fora do bar.
- Mas e a conta?
- Você já pagou. Ande logo, droga.

Sem entender direito, apanhei minha jaqueta e segui o velho homem rua abaixo até o ponto de ônibus.

- Pode me dizer aonde vamos?

O velho ajeitou o chapéu, me olhou com um leve sorriso e disse:

- Você já sabe.

O BOTECO

às 01:54
Foram as “mini-férias” mais divertidas que já tive. Alguns dias longe de tudo e todos me fariam abstrair de tudo de ruim que estava acontecendo ao mesmo tempo. Algumas boates diferentes, DJs de alta qualidade, álcool e outras substancias psicotrópicas permearam meu organismo por dias. Uma dose de animo para poder voltar a fria e cinzenta rotina. Porém com um sorriso a mais no rosto. Na volta de uma festa, deixei os “novos” amigos no hotel e fui procurar uma padaria. Dormir com fome não estava nos meus planos. No meio do caminho, encontrei um boteco. Sujo, vazio, escuro.

Atrás do balcão, um velho careca de bigode branco. Com uma camisa azul suja, um avental branco surrado do tempo e um pano sobre os ombros. Espanava as moscas que insistiam em repousar as asas cansadas sobre as mesas. Sentei-me no balcão e esperei pelo atendimento. Sem dizer uma palavra, o velho pôs um copo a minha frente e me serviu uma cerveja gelada.

Mas como ele sabia o que eu ia pedir? Se nem ao menos barulho eu fiz ao entrar naquele botequim?

- Você parece abatido. Imaginei que fosse pedir cerveja.
- O senhor costuma adivinhar os pedidos assim, o tempo todo? – perguntei curioso àquele homem
- Não. Mas todo esse tempo de vida e de bar, aprendi a reconhecer alguém que se sente magoado por dentro.

Assustei com aquilo. Tentei puxar na memória se eu conhecia aquele homem de algum lugar. Talvez tivesse visitado o bar nos dias anteriores, visto que eu estava drogado, não lembraria imediato. Mas nada me vinha a cabeça. Era realmente a primeira vez que eu via aquele homem.

- E o que te faz crer que eu estou magoado?
- Você viajou quilômetros a procura de abstração. Seu sotaque é diferente, você não é daqui. Você tem estampado na cara que não é essa pessoa fria, insensível e cretina que aparenta ser. Algo ou alguém te machucou de uma forma que você não tolera, e por isso você se recolheu sob essa capa de petulância. Prega a todos que ninguém é tão confiável quanto si próprio e que toda relação é miserável, visto que é extremamente fácil ser feliz sozinho. Você prega ser feliz e completo por si só, quando na verdade, procura incansavelmente por alguém que te faça sair dessa auto-enganação e voltar a confiar na humanidade e no amor.

Eu arregalei os olhos logo nas primeiras palavras. Como era possível que aquele homem, velho, careca, corcunda e com poucos dentes, aparentando ser um completo ignorante, soube me descrever tão profundamente? Apesar de impressionado, mantive a postura e respondi:

- E de onde o senhor decorou isso? Leu em algum livro? No jornal de cedo?
- Eu não preciso ler jornal algum. Eu vejo em você.
- Mas como? Se eu entrei em seu bar não faz 5 minutos?
- Você tem medo do que os outros podem fazer. Tem receio de se machucar. Precisa ter o controle da situação o tempo todo. Precisa de afirmativas de todos sobre tudo. Precisa saber sobre tudo que se passa ao seu redor, para ter certeza que não estão tramando contra você, ou te usando apenas para saciarem seus malditos egos. Você tem medo de se relacionar, pois não quer passar pelo mesmo que já passou antes. Mas se esquece que a vida é feita de momentos, e para cada momento que se pensa em viver, existe uma escolha. E em cada escolha que fazemos, existem riscos. Você tem medo dos riscos. Principalmente do risco de ser feliz uma vez.

O homem começava a me assustar. Olhei para os lados e não via ninguém. Não encontrava a porta. Apenas a voz do velho homem ecoando em minha cabeça.

- Muito bem. O senhor agora está me assustando. Quem diabos é você e de onde me conhece?
- Você sabe bem quem eu sou. Eu sou uma parte de você que precisa falar, precisa viver. Precisa ser.
- Não to entendendo.

Nesse momento, uma sucessão de sons invadiram meus ouvidos, me impedindo de encontrar a voz do velho homem. Tentei me concentrar mas fui impedido por um forte tapa na cara.

Sacudi a cabeça, levei a mão ao rosto, esfreguei os olhos e pude ver uma estante de bebidas. A minha frente, um espelho grande. E ao meu lado. um senhor careca, de bigode branco, com cara de assustado, me perguntava temeroso:

- “Ocê” ta bem, meu filho?
- Estou.
- Pois então. Estás sentado nesse balcão há duas horas, olhando pro espelho sem piscar, as vezes mexia com a cabeça. Vai querer alguma coisa?
- Perdão. O senhor disse duas horas?
- Sim. Você chegou aqui as 6:30. São 8:40 agora.
- Não vou querer nada. Preciso voltar para o hotel.

Saí de lá atordoado. Corri para o hotel, fiz as malas e parti para o aeroporto. Obviamente perdi meu vôo das oito horas.

No outro avião, não conseguia parar de pensar naquele momento do bar. Cheguei em casa, desfiz as malas e sentei-me frente a janela. Na minha imagem refletida no vidro embaçado, podia ver o velho, sorrindo.

Fui dormir sentindo que algo em mim mudara.

A CENA

às 00:18
Depois daquela cena, corri para o ponto de ônibus, cabeça baixa, olhar distante. Sentei-me na ultima poltrona e chorei como uma criança que acaba de ralar o joelho. Mas ninguém se importava com aquilo. Estavam todos preocupados com seus mundinhos particulares. Dívidas, cartão de crédito, a vontade de comer um filé de frango na janta. Mas eu só conseguia pensar no meu mundo desabando. Não conseguia acreditar no que me acontecia. Todo o amor que eu conscientemente mantive secreto por tanto tempo, esperando o momento certo para declará-lo ao mundo, estava sendo exposto a todos, em forma de lágrimas, sob o banco plástico da linha 013, as 8 da noite.
Sim. Era ridículo. As lágrimas sem sentido, molhando minha barba grossa, por fazer. O gosto salgado ajudava a amargar aquele momento tão idiota quanto o sentimento que alimentei por tanto tempo.

O amor. Tão belo, sincero, e idiota. O que seria dos amantes se não fossem idiotas? O que seria das cartas de amor se não fossem ridículas? E assim eu era. Idiota e ridículo. Mas ainda assim eu me sentia ótimo e bem com tudo aquilo.
Conseguia passar tardes escrevendo poesias, simplesmente visualizando em minha mente seu rosto comum, seu sorriso comum, sua voz. A presença dela eu meus pensamentos automaticamente movimentava os músculos da minha face, abrindo em mim um belo sorriso, e preenchendo meu corpo de contentamento. E eu recompensava preenchendo o papel de belas frases, rimas tolas e linhas sem nexo, que para mim, e somente para mim, simbolizavam o mais intrigante dos sentimentos humanos. O amor. Mas não um amor comum, mas a sua forma mais bonita e incompreensível. O amor platônico.

Um amor que não aproxima, não toca, não envolve. Um amor que, mesmo a distancia, me fazia bem. Me fazia completo. Elevava minha alma a um estado fora do comum e corrente.

Mas uma hora os poemas, versos e frases foram se tornando pouco diante do meu real sentimento. Queria tê-la junto a mim, poder compartilhar com ela aquilo tudo que me passava. Passar a ela a propriedade desse amor, o qual ela já era dona desde o início.

Dias de preparação, coragem, auto-estima, estratégia e criação do momento certo. As palavras, as frases. Imaginei até mesmo a sua reação.

O dia, à hora, o momento. E tudo aconteceu. Exatamente como eu não previ, não esperei. Tudo do jeito que eu mais temia. Vê-la sair daquele local abraçada a outro, e antes disso ouvir da boca dela que eu havia confundido tudo, que os meus sentimentos estavam equivocados, que ela não sentia por mim o mesmo que eu sentia por ela. Foi como uma facada nas costas. Como eu fui tão idiota de não ter ponderado isso? Como eu pude deixar uma amizade evoluir a tal ponto? Como eu pude chegar a isso? Como? Por que?

Desci do ônibus, cabeça baixa, olhar distante. Procurei pela calçada o mais escuro dos bares. Sentei-me numa espelunca suja e fedorenta. Pedi uma cerveja qualquer e um maço de cigarros. Eu que não fumava, não bebia, sentia de repente uma imensa vontade de fazê-los.

E assim terminei a noite. Chorando, fumando, bebendo.

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