Foram as “mini-férias” mais divertidas que já tive. Alguns dias longe de tudo e todos me fariam abstrair de tudo de ruim que estava acontecendo ao mesmo tempo. Algumas boates diferentes, DJs de alta qualidade, álcool e outras substancias psicotrópicas permearam meu organismo por dias. Uma dose de animo para poder voltar a fria e cinzenta rotina. Porém com um sorriso a mais no rosto. Na volta de uma festa, deixei os “novos” amigos no hotel e fui procurar uma padaria. Dormir com fome não estava nos meus planos. No meio do caminho, encontrei um boteco. Sujo, vazio, escuro.
Atrás do balcão, um velho careca de bigode branco. Com uma camisa azul suja, um avental branco surrado do tempo e um pano sobre os ombros. Espanava as moscas que insistiam em repousar as asas cansadas sobre as mesas. Sentei-me no balcão e esperei pelo atendimento. Sem dizer uma palavra, o velho pôs um copo a minha frente e me serviu uma cerveja gelada.
Mas como ele sabia o que eu ia pedir? Se nem ao menos barulho eu fiz ao entrar naquele botequim?
- Você parece abatido. Imaginei que fosse pedir cerveja.
- O senhor costuma adivinhar os pedidos assim, o tempo todo? – perguntei curioso àquele homem
- Não. Mas todo esse tempo de vida e de bar, aprendi a reconhecer alguém que se sente magoado por dentro.
Assustei com aquilo. Tentei puxar na memória se eu conhecia aquele homem de algum lugar. Talvez tivesse visitado o bar nos dias anteriores, visto que eu estava drogado, não lembraria imediato. Mas nada me vinha a cabeça. Era realmente a primeira vez que eu via aquele homem.
- E o que te faz crer que eu estou magoado?
- Você viajou quilômetros a procura de abstração. Seu sotaque é diferente, você não é daqui. Você tem estampado na cara que não é essa pessoa fria, insensível e cretina que aparenta ser. Algo ou alguém te machucou de uma forma que você não tolera, e por isso você se recolheu sob essa capa de petulância. Prega a todos que ninguém é tão confiável quanto si próprio e que toda relação é miserável, visto que é extremamente fácil ser feliz sozinho. Você prega ser feliz e completo por si só, quando na verdade, procura incansavelmente por alguém que te faça sair dessa auto-enganação e voltar a confiar na humanidade e no amor.
Eu arregalei os olhos logo nas primeiras palavras. Como era possível que aquele homem, velho, careca, corcunda e com poucos dentes, aparentando ser um completo ignorante, soube me descrever tão profundamente? Apesar de impressionado, mantive a postura e respondi:
- E de onde o senhor decorou isso? Leu em algum livro? No jornal de cedo?
- Eu não preciso ler jornal algum. Eu vejo em você.
- Mas como? Se eu entrei em seu bar não faz 5 minutos?
- Você tem medo do que os outros podem fazer. Tem receio de se machucar. Precisa ter o controle da situação o tempo todo. Precisa de afirmativas de todos sobre tudo. Precisa saber sobre tudo que se passa ao seu redor, para ter certeza que não estão tramando contra você, ou te usando apenas para saciarem seus malditos egos. Você tem medo de se relacionar, pois não quer passar pelo mesmo que já passou antes. Mas se esquece que a vida é feita de momentos, e para cada momento que se pensa em viver, existe uma escolha. E em cada escolha que fazemos, existem riscos. Você tem medo dos riscos. Principalmente do risco de ser feliz uma vez.
O homem começava a me assustar. Olhei para os lados e não via ninguém. Não encontrava a porta. Apenas a voz do velho homem ecoando em minha cabeça.
- Muito bem. O senhor agora está me assustando. Quem diabos é você e de onde me conhece?
- Você sabe bem quem eu sou. Eu sou uma parte de você que precisa falar, precisa viver. Precisa ser.
- Não to entendendo.
Nesse momento, uma sucessão de sons invadiram meus ouvidos, me impedindo de encontrar a voz do velho homem. Tentei me concentrar mas fui impedido por um forte tapa na cara.
Sacudi a cabeça, levei a mão ao rosto, esfreguei os olhos e pude ver uma estante de bebidas. A minha frente, um espelho grande. E ao meu lado. um senhor careca, de bigode branco, com cara de assustado, me perguntava temeroso:
- “Ocê” ta bem, meu filho?
- Estou.
- Pois então. Estás sentado nesse balcão há duas horas, olhando pro espelho sem piscar, as vezes mexia com a cabeça. Vai querer alguma coisa?
- Perdão. O senhor disse duas horas?
- Sim. Você chegou aqui as 6:30. São 8:40 agora.
- Não vou querer nada. Preciso voltar para o hotel.
Saí de lá atordoado. Corri para o hotel, fiz as malas e parti para o aeroporto. Obviamente perdi meu vôo das oito horas.
No outro avião, não conseguia parar de pensar naquele momento do bar. Cheguei em casa, desfiz as malas e sentei-me frente a janela. Na minha imagem refletida no vidro embaçado, podia ver o velho, sorrindo.
Fui dormir sentindo que algo em mim mudara.